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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Cientistas britânicos apoiam uso de DNA de três pessoas em fertilização


Um dos principais conselhos de bioética da Grã-Bretanha publicou nesta terça-feira um relatório em apoio à criação de embriões usando material genético de três pessoas, técnica atualmente utilizada em pesquisas e que até o final deste ano deve receber a aprovação ou rejeição da sociedade britânica em uma consulta popular.

Polêmica, a técnica visa substituir material genético defeituoso no óvulo para eliminar doenças raras presentes na mitocôndria (componente celular que tem a presença de material genético), como síndromes que podem causar a morte prematura de crianças. Conhecidas como distúrbios mitocondriais, tais doenças afetam uma em cada 6.500 crianças britânicas e podem causar incapacidade muscular, cegueira e insuficiência cardíaca.

O relatório, emitido pelo Conselho de Bioética de Nuffield (um respeitado órgão independente financiado por fundações internacionais) após oito meses de análise, não encontrou obstáculos éticos no uso de tais técnicas em tratamentos de reprodução assistida no futuro. Um centro de pesquisa da Universidade Newcastle também investigará se a técnica é segura.

Limitado na questão ética, o anúncio não traz mais detalhes sobre aspectos de segurança e eficácia do procedimento, que ainda estão sob estudo em diferentes centros de pesquisa.

Realidade brasileira 

No Brasil, o tema ainda não está em discussão mas pode ser colocado em pauta caso as pesquisas britânicas sejam bem sucedidas, disse em entrevista à BBC Brasil Adelino Amaral, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.

"Em questão de qualidade dos procedimentos estamos par a par com os Estados Unidos e a Europa, mas em termos de pesquisa, ainda enfrentamos entraves burocráticos e éticos que os mantêm muito à nossa frente. Esta técnica específica representa um debate ainda muito distante no Brasil", diz.

Amaral avalia que toda técnica que visa diminuir a transmissão de doenças costuma ser bem vista pela sociedade, mas é preciso ver se ela é bem sucedida.

"Acho que pode entrar em discussão no Brasil, sim, mas primeiro precisamos ver se é algo que será comprovado pelos pesquisadores britânicos e se poderá ser replicado em outros centros", diz.

O médico diz que ainda neste ano a Sociedade deve ter uma reunião com três pontos principais: o destino de embriões congelados, a preocupação com a idade das mulheres que passam por fertilização in vitro (muitas acima de 55 anos estão fazendo o procedimento) e detalhes de reprodução assistida para casais homossexuais após a nova legislação de união civil. Antes de cruzar o Atlântico, no entanto, o tema ainda deve gerar polêmica não só entre a classe médica e científica mas também entre líderes religiosos e diferentes grupos da sociedade britânica.


'Frankenstein' e referendo

David King, diretor da ONG Human Genetics Alert, criticou o procedimento comparando-o à criação de um "Frankenstein".

"Assim como a criação do Frankenstein foi produzida a partir da junção de partes de muitos corpos diferentes, me parece agora que cientistas e seus assistentes bioéticos ultrapassam o limite do grotesco, das normas da natureza e da cultura humana", avalia. "As técnicas propostas (...) abrem um precedente para permitir a criação de bebês 'sob medida' geneticamente modificados" e cruzam "o que é normalmente considerado o limite ético mais importante para a prevenção de uma nova eugenia", acrescenta.

Geoff Watts, do Centro Nuffield, diz que a doadora não poderia ser classificada como uma "segunda mãe" aos olhos da lei e que a técnica poderia trazer benefícios. "Se as pesquisas mostrarem que estas técnicas são suficientemente seguras e eficazes, nós pensamos que seria ético para as famílias que as usassem se assim quisessem, desde que recebam um nível apropriado de informação e apoio. Elas poderiam trazer significativos benefícios sociais e de saúde para as famílias e indivíduos que potencialmente viveriam suas vidas sem distúrbios que podem ser muitos severos e debilitantes", avalia.

Ainda em janeiro deste ano o governo britânico decidiu promover uma consulta pública a respeito do assunto, a partir de setembro. Só depois deste referendo a Grã-Bretanha decidirá se o método, atualmente usado apenas em pesquisas, poderá ser aplicado em pacientes. Atualmente, seria necessária uma mudança legal no país para que o procedimento possa ser oferecido a pacientes.

Ao anunciar a consulta pública, o ministro britânico para Universidades e Ciência, David Willetts, disse que "cientistas fizeram uma descoberta importante e potencialmente salvadora de vidas ao conseguir prevenir doenças mitocondriais". Mas ele faz a ressalva de que, "com todos os avanços da ciência moderna, é vital que escutemos a opinião do público antes de considerar qualquer mudança".

Distúrbios hereditários

A mitocôndria pode ser encontrada em quase todas as células humanas, provendo a energia que essas células precisam para funcionar. Como os núcleos da célula, a mitocôndria contém DNA, ainda que em pequenas quantidades.

Em média, um em cada 6.500 bebês britânicos nasce com problemas hereditários em seu DNA mitocondrial, cujos efeitos podem ser graves ou até mesmo fatais, dependendo de quais células são afetadas. Cientistas acreditam ter encontrado uma forma de substituir a mitocôndria defeituosa e, assim, eventualmente prevenir o feto de desenvolver uma doença.

A técnica consiste no uso de dois óvulos - um da mãe do feto, e outro de uma doadora. De forma geral, a técnica poderia permitir aos cientistas trocar o DNA mitocondrial do óvulo da mãe, caso tenha potencial causador dos distúrbios, pelo de uma doadora saudável. O núcleo, no entanto, que mantém as características pessoais, seria originado pelo material genético do pai e da mãe da criança. O embrião resultante tem uma mitocôndria em tese saudável e ativa vinda da doadora e não da mãe.

O procedimento não tem, assim, impacto no DNA do feto nem na determinação de fatores como a aparência da criança.

'Manipulação genética'

No entanto, ainda que o procedimento conte apenas com uma limitada contribuição genética da terceira pessoa - a doadora -, a técnica é criticada por alguns grupos, que defendem que tais manipulações genéticas trazem riscos. A consulta deve durar até o final deste ano.

A ONG Wellcome Trust, que vai financiar as pesquisas da Universidade Newcastle, defende que a técnica em discussão pode ser útil na prevenção de doenças incuráveis.

"Saudamos a oportunidade de discutir com o público o porquê de acharmos que esse procedimento é essencial para darmos às famílias afetadas (por doenças mitocondriais) a chance de ter filhos saudáveis", afirmou.

Segundo Douf Turnbull, professor da Newcastle, a universidade recebe anualmente "centenas de pacientes cujas vidas são seriamente afetadas" por essas doenças.

Fonte: Bol Notícias e BBC Brasil 

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domingo, 25 de dezembro de 2011

Os povos africanos e suas etnias


A leitura deste tema despertou-me o interesse... Os povos africanos pertencem a varias centenas de grupos étnicos diversos. Cada grupo tem sua língua distinta, tradições, arte, ofícios, historia modo de vida e religião.

Resolvi pesquisar mais a fundo quando me deparei com algumas referências aos guerreiros Maasai (segue abaixo)...  

O atual continente africano consiste numa grande variedade de mundos. Seus povos vivem em diversas condições tanto de contrastes extremados como de classe media.

Há extrema pobreza e grandes riquezas; ha pessoas que sofrem de sede e fome, e pessoas que tem comida em abundância; ha enormes reservas naturais com abundância de vida natural e ha partes altamente urbanizadas de cidades com arranha-céus e conforto moderno.


Os Maasai     
No Quênia, na África Oriental, há mais de 40 etnias, cada uma com suas próprias crenças. A maasai, instalada no sul do país e o norte da Tanzânia, acredita num deus único, dividido em duas pessoas. 

Eles são Enkai-Norok, deus negro e generoso da chuva e Enkai-Manyocik, deus vermelho e malicioso da seca. Segundo suas crenças, matar um animal sem razão alguma é violar o sagrado e chamar o castigo divino.

Os Maasai preservam muitas de suas tradições culturais e, é um dos grupos mais conhecidos internacionalmente. Seu idioma é o “Maa” e sua população estava estimada em 883.000, ou seja, 453.000 no Quênia e 430.000 na Tanzânia. Essa estimativa torna-se prejudicada devido a natureza nômade dos Maasai, pois é a única etnia autorizada a viajar livremente pelas fronteiras entre o Quênia e a Tanzânia.

A força desse povo é visível no olhar, conhecido como “Caçadores de Leões”, os jovens caçavam em sinal de bravura para suas futuras esposas, hoje essa é uma prática rara, mas quando caçam, o método utilizado é a lança, não utilizam rifle ou espingarda.


A tribo Maasai se distingue das outras etnias vestindo sempre algo na cor vermelha. Patriarcalista por natureza, os mais velhos é que decidem sobre qualquer assunto para todos os grupos Maasai.

Os destaques ficam para a dança. Essa dança para o povo Maasai, na verdade, é um sinal de virilidade,. quem salta mais alto tem mais esposas, daí vem sua importância para a tribo.

O Ser Supremo e Criador dos Maasai

Enkai (conhecido também como Engai) é seu único Deus, àquele que dá o gado ao povo Maasai, também Guardião da Chuva, do sol, da fertilidade, do amor e fonte do conhecimento sobre as ervas.

O líder espiritual dos Maasai é o “
Laibon”, ele é o intermediário entre os Maasai e o Deus Enkai.

A iniciação é realizada somente na maioridade dos jovens, quando então ocorrem as cerimônias ritualísticas, a principal é a circuncisão.

Curioso é o casamento, para que as mulheres possam casar, elas devem estar solteiras e grávidas, dessa forma o homem pode escolher a que mais lhe agradar, desenhando na barriga da escolhida um X vermelho. A mulher não pode recusar o pedido, mas caso o faça, ela simplesmente é mandada embora de sua própria casa e abandonada pela família.

A mulher só pode casar uma única vez na vida, já os homens podem ter quantas esposas desejarem e ao mesmo tempo, tudo vai depender do número de vacas suficiente para cada dote. A cada matrimônio o homem tem que dar 10 vacas ao pai da noiva.

Conhecer um pouco da cultura e dos costumes dos “Maasai” (uma das centenas de etnias que habitam as 52 nações do continente africano), é sem dúvida, muito agregador. Não caberia apenas num artigo, a multiplicidade de rituais e hábitos desse povo, porém, é certo que, a África talvez seja a região do mundo onde existe a maior variedade desses costumes, considerados exóticos pela mentalidade ocidental.

A estrada passa veloz ao longo do Rift Valley, cortando a árida savana marcada pelas acácias. No horizonte, as montanhas marcam a fronteira entre Quênia e Tanzânia. Ainda mais longe fica o cume do Kilimanjaro coberto de neve. É a terra dos Maasai, pátria de um povo orgulhoso e indomável, de pastores e guerreiros, terra que guarda as raízes de uma antiga tradição. Começa a alvorada.

Um ‘conto’ Maasai...

Na aldeia da noiva fervem os preparativos: é o dia do matrimônio, data em que a moça será entregue oficialmente ao seu futuro esposo. Este vem de muito longe e espera com uma testemunha fora da cabana, entre os homens da família de sua futura esposa. Dentro da cabana, a mãe e as outras mulheres da aldeia preparam a moça seguindo um ritual secreto e inalterado no tempo.

A cabana é baixa e escura, de forma retangular, feita de folhas e galhos entrelaçados, cobertos de peles de animais e de uma mistura de argila e esterco de vaca. Pela única porta, ligeiramente aberta, entram e saem mulheres, atarefadas e alegres, todas enfeitadas com suas melhores roupas e adornos. São colares, braceletes, brincos e anéis feitos com pérolas de muitas variedades. Para valorizarem seus adereços e ficarem mais atraentes, todas têm as cabeças raspadas.









A vaidade dos homens não é menor. Eles se vestem com mantos de lã, nos quais prevalece a cor vermelha em diversas tonalidades. As crianças, sentadas no chão, olham silenciosas e pacientes, apesar das nuvens de moscas rodando sobre elas.

A tia e uma das irmãs da noiva ficam encarregadas de preparar as sandálias com as quais a moça será apresentada à aldeia do noivo. 

As sandálias são um símbolo de prosperidade para a família que se forma. Elas representam o gado que é um bem supremo, fonte de vida e de prestígio. "Senhor - oram os Maasai - concedei-nos generosamente sandálias e cajados para o tempo da nossa velhice".

Ainda hoje, os Maasai são, em grande parte, pastores nômades que alternam longos meses em busca de pastos e água com outros períodos de permanência em lugares fixos. O gado é meio de vida e objeto de fé. Segundo a lenda, Engai (ou Enkai), o Ser Supremo, teria entregue todo o gado do mundo aos Maasai. Lavrar a terra seria uma ofensa.

Às manadas são dedicados carinho e atenção. O gado, com vistosas corcundas e longos chifres, tem um grande valor social: a fortuna econômica é sempre medida pela quantidade de gado, que serve para manter a família, aumentar a riqueza e possuir mais mulheres e filhos.

Os animais também são objeto de culto; não são mortos exclusivamente por motivos alimentares, mas somente por razões rituais. O alimento principal é o leite. Durante o casamento, é oferecido a todos os presentes na espera que a esposa esteja pronta para deixar a casa materna. O leite tem um gosto ácido e, muitas vezes, é misturado ao sangue do gado que traz vitalidade e força aos Maasai.

Para que o matrimônio aconteça, as famílias passam por longas negociações. A moça prepara-se para as bodas desde a puberdade, quando sofre a excisão, abandonando o nome da infância e os velhos enfeites. A oficialização do casamento ocorre somente quando o noivo entrega ao pai da noiva o número de bois negociado. Para muitos povos africanos, o casamento não envolve simplesmente um homem e uma mulher, mas as suas famílias inteiras. A ligação que se cria por meio da entrega do gado torna-se uma nova relação de amizade, partilha, solidariedade e apoio recíproco.

A esposa está quase pronta e o esposo, impaciente, após longas horas de espera. O pai e alguns anciãos entram na cabana para os ritos e a benção final. A última a sair é a noiva. Está vestida com uma longa túnica preta enfeitada com adornos coloridos. As mãos escondem o rosto de uma moça de quinze anos, emoldurado por faixas de pérolas, colares e brincos. Ela soluça e chora enquanto vai ao encontro do esposo, sem olhar atrás de si, pois causaria má sorte. As mulheres da família acompanham-na até o esposo, entoando cantos de encorajamento, misturados com gritos agudíssimos. 

Ela é entregue ao esposo e à testemunha, ambos de rosto pintado de vermelho. É o momento da separação, da saída para uma nova casa e uma nova vida. A aldeia reúne-se ao redor da jovem, que soluça fortemente, sinal de tristeza e gratidão para com a família que a criou e que talvez jamais possa rever.

Invisíveis trilhas de terra arenosa, que olhos estrangeiros não sabem descobrir, levam à aldeia do marido, onde tudo está pronto para acolher a esposa. As mulheres idosas, bem adornadas, acolhem-na e acompanham-na até a nova cabana, cantando e dançando ritmicamente. Seus movimentos repetem os dos pássaros e dos animais da savana.

Invisíveis trilhas de terra arenosa, que olhos estrangeiros não sabem descobrir ...

O conjunto tem algo de mágico e hipnótico, cercado por um vale encostado nas montanhas, onde o tempo e a natureza parecem imóveis, vítimas de uma magia que essas vozes e essas danças prolongam ao infinito.

Depois de ter acompanhado a esposa, que não sairá da cabana pelo resto do dia, as mulheres acolhem os outros hóspedes, que são levados, sempre ao ritmo de cantos, sob a proteção da sombra de grandes acácias. É servido churrasco sobre longas e grandes espadas. A cerveja fabricada na aldeia é misturada à cerveja comercial e todos bebem à vontade.

As mulheres mais jovens, em grupo e com as crianças acomodadas junto ao corpo, também participam. Durante horas e horas, debaixo do sol forte, entoam com vozes agudas hinos de alegria e de prosperidade para o novo casal. Os anciãos, os únicos no interior da pequena aldeia, bebem e discutem à sombra de uma grande árvore, e abençoam os hóspedes que a eles prestam homenagem, pondo carinhosamente a mão sobre suas cabeças. Os jovens guerreiros, ao contrário, ficam de lado.


Povo temido - Os moran, como são chamados os guerreiros entre quinze e trinta anos, têm longos cabelos entrelaçados e misturados com ocra vermelha e gordura de carneiro. Em tempo de guerra estas decorações serviam para tornar mais assustador o aspecto dos guerreiros e agora, durante a cerimônia, servem para atrair a atenção, em particular das moças.

O rapaz torna-se moran após a circuncisão, assumindo um compromisso militar diante da comunidade. Os guerreiros possuem o direito e o dever das armas, defendendo o território e o gado, caçando os animais predadores e, no passado, roubando gado de outros povos.
Hoje os Maasai perderam a agressividade que os tornava o povo mais temido da região, mas conservaram costumes e tradições.

Entre eles, as danças características, durante as quais os guerreiros mostram a habilidade pessoal e o entrosamento de grupo, acontecem ao som de um canto rítmico feito de tons agudos e graves.

Nem todos os moran permanecem na aldeia. Alguns saem para a caça ao leão, antigamente um rito fundamental na consagração de um novo membro. Para os Maasai a caça ao leão no dia das bodas garante boa sorte ao matrimônio.

Os jovens guerreiros partem acompanhados dos anciãos, que oram para Engai (Enkai), o Ser Supremo, "cujo olho é grande e a tudo observa". Ele vigia os Maasai "que são os melhores e os mais fortes guerreiros".



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Escassez de terra e água coloca produção de alimentos em risco, aponta estudo da FAO


A degradação dos recursos naturais aumenta o desafio de alimentar uma população que deve chegar aos 9 bilhões de pessoas em 2050 


A degradação e a escassez de terras e água colocam em perigo vários sistemas de produção de alimentos em todo o mundo e representam um desafio para alimentar a população mundial, que pode chegar a 9 bilhões de pessoas em 2050. Esta é a conclusão de um comunicado da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Um dos "sinais de advertência" do relatório é que as taxas de crescimento da produção agrícola diminuíram em muitas áreas e atualmente não chegam à metade do que eram no apogeu da Revolução Verde (décadas de 1960 e 1970).
De acordo com a FAO, atualmente muitos desses sistemas correm o risco de perder de forma progressiva sua capacidade produtiva por causa da pressão demográfica e de práticas e usos agrícolas insustentáveis. "O estado dos recursos mundiais de terras e água para a alimentação e a agricultura mostra que apesar do aumento nos últimos 50 anos na produção de alimentos, os lucros se associaram a práticas de gestão que degradaram as terras e os sistemas hídricos daqueles que dependem da produção de alimentos", diz o relatório.


Os gargalos em recursos naturais levarão à concorrência pelas terras e pela água, diz o relatório. A disputa será entre usuários urbanos e industriais e dentro do setor agrícola, entre a produção pecuária, a de cultivos básicos, a de cultivos não alimentícios e a produção de biocombustíveis. Em consequência, será enorme o desafio de proporcionar alimentos suficientes para um planeta que tem cada vez mais fome, especialmente nos países em desenvolvimento, onde as terras de boa qualidade, os nutrientes do solo e a água são menos abundantes, diz o relatório. "É previsto que a mudança climática modifique as temperaturas, as chuvas e a abundância dos rios, que são responsáveis pelos sistemas de produção de alimentos do mundo", diz o comunicado.
O relatório ressaltou que o conjunto de repercussões destas pressões e as transformações agrícolas conseguintes puseram alguns sistemas de produção em risco de decompor a integridade ambiental e sua capacidade produtiva. Estes sistemas em risco poderiam não contribuir como se esperava para satisfazer as demandas humanas em 2050. "As consequências do ponto de vista da fome e da pobreza são inaceitáveis. A ação corretiva precisa ser tomada agora", disse Jacques Diouf, diretor-geral da FAO. 

Entre 1961 e 2009, a superfície agrícola mundial cresceu 12%, mas a produção agrícola cresceu 150%, graças a um aumento significativo dos rendimentos dos principais cultivos.
O relatório ressalta a imagem de um mundo que experimenta um crescente desequilíbrio entre disponibilidade e demanda de terras e recursos hídricos nos planos local e nacional. O número de áreas que chegam aos limites de sua capacidade produtiva aumenta rapidamente. O relatório adverte que "25% das terras do planeta estão degradadas".
Outros 8% apresentam uma degradação moderada, 36% estão em condições de estabilidade ou degradação ligeira e 10% se classificam como terras que estão melhores. A superfície restante do planeta está descoberta (cerca de 18%) ou coberta por massas de água continentais (2%).
A definição da FAO de degradação vai além da deterioração das terras e das águas em si, e inclui uma avaliação de outros aspectos dos ecossistemas afetados, como a perda de biodiversidade.  Segundo o relatório, não há região imune, em todo o planeta há sistemas em perigo, das terras altas dos Andes até as estepes da Ásia Central, da bacia hidrográfica do Murray-Darling na Austrália até o centro dos Estados Unidos. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Perfil do Corrupto



Manifestações públicas em várias cidades exigem o fim do voto secreto no Congresso; o direito de o CNJ investigar e punir juízes; a vigência da Ficha Limpa nas eleições de 2012; e o combate à corrupção na política.
Por que há tanta corrupção no Brasil? Temos leis, sistema judiciário, polícias e mídia atenta. Prevalece, entretanto, a impunidade – a mãe dos corruptos. Você conhece um notório corrupto brasileiro? Foi processado e está na cadeia?
O corrupto não se admite como tal. Esperto, age movido pela ambição de dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca peixe não belisca.
O corrupto não se expõe; extorque. Considera a comissão um direito; a porcentagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento eleitoral. Bobos aqueles que fazem tráfico de influência sem tirar proveito.
Há vários tipos de corruptos. O corrupto oficial se vale da função pública para extrair vantagens a si, à família e aos amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com passagem custeada pelo erário, usa cartão de crédito debitável no orçamento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagar. Considera natural o superfaturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas marcadas.
Sua lógica é corrupta: "Se não aproveito, outro sai no lucro em meu lugar". Seu único temor é ser apanhado em flagrante. Não se envergonha de se olhar no espelho, apenas teme ver o nome estampado nos jornais e a cara na TV.
O corrupto não tem escrúpulo em dar ou receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-no com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as verbas públicas.
Há o corrupto privado. Jamais menciona quantias, tão somente insinua. É o rei da metáfora. Nunca é direto. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor sabe ler nas entrelinhas.
O corrupto “franciscano” pratica o toma lá, dá cá. Seu lema: "quem não chora, não mama". Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a maracutaia. É o primeiro a indignar-se quando o assunto é a corrupção.
O corrupto exibido gasta o que não ganha, constrói mansões, enche o pasto de bois, convencido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira.
O corrupto cúmplice assiste ao vídeo da deputada embolsando propina escusa e ainda finge não acreditar no que vê. E a absolve para, mais tarde, ser também absolvido.
O corrupto previdente fica de olho na Copa do Mundo, em 2014, e nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Sabe que os jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, orçados em R$ 800 milhões, consumiram R$ 4 bilhões.
O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elogia, incensa; não possui valores, apenas saldo bancário. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negocista bem-sucedido.
Melífluo, o corrupto é cheio de dedos, encosta-se nos honestos para se lhe aproveitar a sombra, trata os subalternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres humanos.

Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de serem eleitos para funções públicas.


Autor: Frei Betto 


domingo, 27 de novembro de 2011

O NASCIMENTO DE UMA ÉTICA PLANETÁRIA


A base de toda construção ética, cujo campo é a prática, se baseia nesta pressuposição: a ética surge quando o outro emerge diante de nós. 
O outro pode ser a pessoa mesma que se volta sobre si mesma, analisa a consciência, capta os apelos que nela se manifestam (ódio, compaixão, solidariedade, vontade de dominação ou de cooperação, sentido de responsabilidade) e se dá conta de seus atos e das conseqüências que deles derivam. O outro pode ser aquele que está à sua frente, homem ou mulher, criança, trabalhador, empresário, portador de HIV, negro etc. O outro pode ser plural, como uma comunidade, uma classe social, a sociedade como um todo, ou, numa perspectiva mais global, a natureza, o planeta Terra como Gaia e, em último termo, Deus. 
Diante do outro, ninguém pode ficar indiferente. Tem que tomar posição. Mesmo não tomando posição, silenciando e mostrando-se indiferente, isto já é uma posição.
A ética surge a partir do modo como se estabelece a relação com estes diferentes tipos de outro. Pode fechar-se ou abrir-se ao outro, pode querer dominar o outro, pode entrar numa aliança com ele, pode negar o outro como alteridade, não o respeitando, mas incorporando-o, submetendo-o ou, simplesmente, destruindo-o.
De todas as formas, o outro representa uma proposta que reclama uma resposta. Deste confronto entre proposta e resposta surge a responsabilidade. Ao assumir minha responsabilidade ou demitir-me dela, faço de mim um ser ético. Dou-me conta da conseqüência de meus atos. Eles podem ser bons ou ruins para o outro e para mim.
O outro é determinante. Sem passar pelo outro (que pode ser eu mesmo), toda ética é antiética.
Não sem razão, todas as religiões e tradições éticas do Ocidente e do Oriente estabelecem como máxima fundadora do discurso ético: “Não faz ao outro o que não queres que façam a ti.” Ou positivamente: “Faz ao outro o que gostarias que fizessem a ti.” Ou ainda: “Cuidem-se uns aos outros para terem vida e garantirem o amor.” É a regra áurea.
E como o outro é o pobre e o excluído, o imperativo ético mínimo e urgente é este, bem formulado por Enrique Dussel, filósofo da libertação argentino: “Liberta o pobre e inclui o excluído.”
Apliquemos isto à nossa sociedade. Ela não é uma sociedade qualquer. Precisa ser qualificada: é uma sociedade predominantemente estruturada no modo de produção capitalista, quer dizer, privilegia o capital sobre o trabalho, privatiza os meios de produção e define, de forma desigual, o acesso aos bens necessários à vida: primeiro quem detém os meios de produção, depois os demais, deixando de fora quem não tem força social de pressão. São os excluídos, hoje perfazendo as grandes maiorias da humanidade, cujas vidas não têm sustentabilidade, vivem abaixo do nível de pobreza e, em conseqüência, morrem antes do tempo.
Este tipo de sociedade valoriza mais a competição que a cooperação e magnifica o indivíduo que constrói sozinho sua vida, seu bem-estar e seu destino, e não a sociedade e a comunidade dentro das quais, concretamente, o indivíduo sempre se encontra. 



A sociedade neoliberal levou até as últimas conseqüências esta visão. Por isso, os governos administram desigualmente os bens públicos, privatizam, planejam políticas públicas e sociais pobres para os pobres e ricas para os ricos e poderosos, sejam indivíduos, empresas ou classes; atendem primeiramente a seus interesses, garantem seu tipo de consumo e são atentos às suas expectativas. Não os incentivam a olhar para os lados onde estão os outros e, assim, fazer e refazer continuamente a solidariedade social. 
Tais governos não realizam a definição mínima de política, que é a busca comum do bem comum e o cuidado das coisas do povo. Por isso, são antiéticos e fautores de atitudes coletivas em contradição com os apelos éticos. Não se orientam pelo outro, que é o princípio fundador da ética básica. Não cuidam da vida, da vida das pessoas, da natureza e da Terra como superorganismo vivo, chamado de Gaia.
A sociedade mundial, hoje globalizada neste modelo antiético, promove a globalização como homogeneização: um só pensamento, um só modo de produção (o capitalista), um só tipo de mercado, uma só tipo de religião (o cristianismo), um só tipo de música (rock), um só tipo de comida (fast food), um só tipo de executivo, um só tipo de educação, um só tipo de língua (o inglês) etc. 
Com a negação da alteridade, ou o seu submetimento ou destruição, a sociedade-mundo atual se coloca em contradição com a ética. Esta atitude perversa tem como conseqüência a má qualidade de vida atual em todos os âmbitos sociais, culturais e ambientais. 
Esta atitude é tanto mais grave pelo fato de atingir o substrato físico-químico que possibilita a biosfera e o projeto planetário humano. Não respeita a Terra como o grande outro e como subjetividade. Reduz este superorganismo vivo a um baú inerte de recursos naturais, entregues ao bel-prazer humano. Violenta a alteridade dos ecossistemas, depredando seus recursos, ameaçando as espécies, envenenando os ares, poluindo os solos, contaminando as águas, como se estes representantes da comunidade terrenal não tivessem uma história mais ancestral que a nossa e nós não dependêssemos deles para a nossa própria vida. 
O preceito ético-ecológico urgente, hoje, é este: “Age de tal maneira que tuas ações não sejam destrutivas da Casa Comum, a Terra, e de tudo o que nela vive e coexiste conosco.”
Ou: “Age de tal maneira que tua ação seja benfazeja a todos os seres, especialmente aos vivos.” Ou: “Age de tal maneira que permita que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a continuar a evoluir conosco.”
Ou então: “Usa e consome o que precisas com responsabilidade para que as coisas possam continuar a existir, atender às nossas necessidades e as das gerações futuras, de todos os demais seres vivos, que também, junto conosco, têm o direito de consumir e de viver.”
Ou ainda: “Cuida de tudo, porque o cuidado faz tudo durar muito mais tempo, protege e dá segurança.” Precisamos consumir para viver. Mas devemos consumir com responsabilidade e com solidariedade para com os outros, respeitando as coisas em sua alteridade e entrando em comunhão com elas, pois são nossos companheiros e companheiras na imensa aventura terrenal e cósmica. 
Como se depreende, não é esta a ética que predomina. A ética vigente é predatória, irresponsável, individualista, perversa para com os outros, tratados com dissimetria e injustiça nos processos de produção, de distribuição e de compensação. Ela é cruel e sem piedade para com a grande maioria dos seres vivos, humanos e não humanos. Por fim, ela ameaça o futuro da biosfera e do projeto humano.
Para superarmos esta ética altamente destrutiva do futuro da humanidade e do planeta Terra, devemos partir de outra ótica. Só uma nova ótica pode gerar uma nova ética.
A nova ótica que está se difundindo um pouco por toda parte arranca de outra compreensão da realidade, fundada no conjunto de saberes que perfazem as ciências da Terra. 



A tese de base desta ótica afirma que a lei suprema do universo é a da interdependência de todos com todos. Tudo está relacionado com tudo em todos os pontos e em todos os momentos. Ninguém vive fora da relação. Mesmo a lei de Darwin – a do triunfo do mais forte – se inscreve dentro dessa panrelacionalidade e solidariedade universal. Por causa das inter-retro-relações de todos com todos é que se garantiu a diversidade em todos os campos, particularmente a biodiversidade e o fato de todos podermos chegar ao ponto que atualmente chegamos. 
Sobrevivemos graças às bilhões de células que interagem em nosso corpo e das bilhões de bactérias, mitocôndrias e outros corpos que vivem dentro dessas células, que por sua vez formam organismos, corpos, sistemas, interconectados com o meio natural e cósmico.
Esta cooperação de todos com todos funda uma nova ótica que, por sua vez, origina uma nova ética de convivência, cooperação, sinergia, solidariedade, de cuidado de uns com os outros e de comunhão de todos com todos e com a Terra, com a natureza e com seus ecossistemas. A partir desta ética nós nos contemos, submetemo-nos a restrições e valorizamos as renúncias em função dos outros e do todo.
Outro princípio básico, oriundo da biologia, também nos indica um caminho ético. Trata-se da importância do cuidado. Sem cuidado, a vida não sobrevive. Tudo o que fazemos vem acompanhado de cuidado, pois sem ele erramos, ofendemos e destruímos. A maior força que se opõe à entropia é o cuidado, pois ele permite que as coisas e as vidas durem mais tempo. O cuidado é uma relação amorosa para com a realidade; anula as desconfianças e confere sossego e paz a quem o recebe. Onde há cuidado, não há violência. E tudo o que amamos, também cuidamos. 
A ética do cuidado se orienta na defesa da vida e das relações solidárias e pacíficas entre os seres humanos e com os demais seres da natureza. Como diz o poeta-cantador Milton Nascimento: “Há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto.”
Ou assumimos tal ética e sobre ela fundamos um novo pacto sociocósmico, como sugere claramente a Carta da Terra, assumida pela Unesco em março de 2000 e por inúmeras outras instituições nacionais e transnacionais, ou enfrentaremos grandes distúrbios que afetarão a humanidade e a vida sobre a nossa Terra. Assim como Gaia teve que suportar quinze grandes dizimações ao longo de sua história de mais de quatro bilhões de anos, e sempre sobreviveu e saiu enriquecida, também agora ela fará uma travessia que irá inaugurar uma nova era. Estamos convencidos de que essa era se fundará nos valores da cooperação, da solidariedade, do cuidado e da reverência. Nela vai emergir, seguramente, um outro tipo de ser humano, que acolherá suas origens terrenais – pois homem vem de humus – e entenderá a si mesmo como sendo a própria Terra que chegou ao momento de sentir, pensar, amar, venerar e responsabilizar-se pelo futuro comum: dos humanos, de todos os demais seres e de si própria como Terra, pátria e mátria de todos.

Uma nova história então começará, com certeza, mais cooperativa, humanitária, cuidadosa, ética e espiritual.


Autor:  L e o n a r d o B o f f
Do Iceberg à Arca de Noé
O NASCIMENTO DE UMA ÉTICA PLANETÁRIA
Editora Garamond, Brasil, 2002, 160 páginas


Fonte: http://romelhoartesvisuais.blogspot.com/2010/07/o-nascimento-de-uma-etica-planetaria.html

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Danada


Doida, danada, absolutamente doida e danada.

Doida desde a nascença, danada porque me lixam.
Não lido bem com gente que tenta lixar-me.
Detesto lambe-botas, odeio engraxadores.
Não sei aproveitar quando gostam de mim...
Gosta quem gosta, quem não gosta, que me aguarde.
Se topo alguém que me é contrário, fico à espreita.
Mal põe o pé em falso, eis-me com toda a minha força.
Que há-de saber que estou lá, atenta, cheia de fôlego.
Não quero ter inimigos, prefiro não me dar ao trabalho.
Mas não me queiram ter como inimiga, que não durmo.
Fico à coca, fico de olho, e não perco oportunidades.
Sou difícil, sou capaz do melhor e do pior, mesmo.

Ando muito contrariada com algumas situações.
Não me conformo, não sou do tipo resignada.
Arranho, mordo, fico alerta, nos bastidores, não sossego.
Espero pela altura certa para saltar sobre a presa.
Sou predadora, não nasci para ser alimento.
Quem não me conhece, talvez me estranhe: eis-me.
Sou feroz e quero o meu pedaço de carne.
Retiro-me para ganhar força, recuo para ganhar balanço.
Quando disparo é para atacar, e quando ataco sei que estou forte.
Lanço-me cheia de força e não falho. Caio sobre, imensa.
Pois, esta narrativa é de uma dureza extrema.

Implantada no solo do meu ser, sou eu, sem vacilar.
Árvore, tronco que se ergue sobre raízes sólidas.
Alimentando-me da força que me calhou ter.
Cheia da certeza de ser implacável no assalto.
Mesmo que sofra, sou inteira e avanço sem medo.
Não tenho medo da dor, só não suporto a derrota.
Bato-me até à morte por aquilo em que acredito.
Rujo, debato-me, ataco com tudo o que sou.
A vida é ganha em sangue. Sangrando.
Estou pronta para lutar, para ferir, para esmagar.

A inteligência engraxa as botas da estupidez

Quem trabalha como assessor de um executivo, de uma autoridade, seja pública, seja privada, em algum momento, cedo ou tarde, terá a sensação de ser mais inteligente do que o chefe. Não raro este sentimento é sufocado pela ideia um tanto lógica de que se o assessor fosse de fato mais inteligente, por certo o assessor seria chefe, e o chefe seria o assessor. E estamos falados.

E assim o subalterno se recolhe à sua sombra de insignificância e legitima o chefe em seu pedestal. Mesmo quando o assessor seja uma espécie de braço-direito, daqueles que não descuidam de seu assessorado, escrevendo seus discursos, suas palestras, falando por ele nas entrevistas, dizendo-lhe como deve se portar, o que propor, que negócio fechar, que hora entrar, que hora sair de uma situação, daqueles que entregam o parecer finalizado, que levam o despacho pronto para colher assinatura no rodapé do imbróglio mais impermeável. Ainda assim, pela lógica da disposição das coisas, pelas posições no organograma, pelo status do cargo, pelo salário que recebe, o assessor, mesmo percebendo que sua lucidez possa ser maior do que a do assessorado, é levado a crer que alguma coisa do chefe (o músculo de tomar decisão, o tirocínio talvez) seja mesmo superior. Mas, convenhamos. Como não poderia Nicolau Maquiavel ter a sensação de ser mais inteligente do que Lourenço de Médici. Como não poderia José Bonifácio de Andrada e Silva considerar-se mais inteligente do que D. Pedro de Alcântara? Como não poderia Galileu Galilei sentir-se mais inteligente do que o grão-duque da Toscana? Como poderia Carlos Drummond de Andrade não sentir-se mais inteligente do que o Ministro Gustavo Capanema?

Os exemplos dariam para confeccionar um volume portentoso, do tamanho de uma lista telefônica de uma grande cidade, no tempo em que listas de telefones ainda havia.

De fato não é rara a situação em que o assessor é realmente mais turbinado de arranjos neurais do que o superior hierárquico. A questão que fica a nos intrigar é por que a situação não é logo invertida, rebaixando o mais estúpido e elevando o mais inteligente?  

É claro que há casos de poder herdado, de injunções políticas que contrariam a suposta ordem natural das coisas, a ponto de ninguém estranhar quando se depara com um jabuti num galho de árvore. Mesmo assim, com algum espaço de tempo, era de se esperar que a inteligência deveria prevalecer e reverter a situação. Mas isso não acontece corriqueiramente. Portanto, podemos concluir que o “natural” (aquilo que ocorre com maior frequência no mundo dos fenômenos) é mesmo o mais inteligente estar a serviço do mais estúpido.

Podemos, com certa razoabilidade, estender essa noção para além das relações de assessor e assessorado. Na vida social do Homo sapiens, a inteligência é apropriada irremediavelmente pela estupidez, em todo tempo e lugar, em todas as esferas e dimensões, de forma que a estupidez circula com desenvoltura e arrogância, assessorada servilmente pela inteligência.

O que é lamentável em tudo isso é que a inteligência é convidada apenas para desenvolver os meios, a logística do projeto, as táticas operacionais, enquanto os objetivos são determinados mesmo é pela estupidez. A inteligência é um insumo usado para alcançar objetivos estúpidos.

Alguns exemplos de casos em que a estupidez se apropria da inteligência a para chegar a resultados grandiosamente danosos.

Quando, há 102 anos, foi lançado o Ford T nos Estados Unidos, conhecido no Brasil como Ford de Bigode, o primeiro carro user-friendly (facilmente dirigido), consumindo combustível fóssil, muita tecnologia nova foi incorporada, muita inteligência foi mobilizada para levar avante tão auspicioso feito. Em um século de automóvel, surgiu uma nova economia, um novo estilo de vida, uma nova razão de viver. Novas e poderosas companhias multinacionais perfuraram o planeta de canto a canto numa busca frenética pelo caldo preto e pré-histórico, para dar propulsão aos bólidos cada vez mais desejados, populares e irrestritos. Um verdadeiro sucesso de crítica e público.

Com o automóvel puxando a economia, o mundo experimentou uma riqueza sem precedentes, cujo volume e velocidade gananciosos de tempo algum ousaram sonhar. Surgiram da noite para o dia magnatas tão portentosos, cuja riqueza pessoal não seria gasta nem se pudessem levá-la consigo por toda a eternidade.  Corporações gigantescas e poderosas afloraram pelo mundo na esteira desse progresso vertiginoso, de tal sorte que muitas empresas, pela primeira vez na história, tornaram-se mais influentes e poderosas do que as cidades-estados do medievo ou dos atuais países soberanos.

Muita inteligência, repita-se, foi mobilizada para que o automóvel dominasse a cena e ocupasse a paisagem da Terra, nestes 100 anos. Esse domínio foi tamanho que se hoje chegasse por aqui um extraterrestre pela primeira vez, anotaria facilmente em sua carta de Pero Vaz de Caminhas que o automóvel é o animal dominante do planeta, aquele que está no topo cadeia alimentar.

Mas não resta dúvida de que esse tempo todo a inteligência esteve no cabresto da estupidez, na execução de seus objetivos mais sórdidos e autodestrutivos. Com a queima inveterada do combustível fóssil, nossa bolha de sobrevivência, mais conhecida como camada de ozônio, foi puída e rasgada a ponto de quase inviabilizar a vida do homo sapiens no planeta, sem ter dado tempo da espécie se preparar para uma possível migração. Sem dar tempo sequer de descobrir um outro planeta azul envolvido igualmente por uma célula de sobrevivência, para onde o animau çinixtro pudesse levar sua inteligência puxada pelo cabresto da estupidez.

O Painel do Clima da Organização das Nações Unidas atesta que nestes 100 anos o planeta aqueceu numa velocidade espantosa: num ciclo geológico anterior, sem a presença do homem e suas máquinas tresloucadas, o aquecimento similar teria demorado sete mil anos para transcorrer.

Outro exemplo: A estupidez mobilizou um volume formidável de inteligência para converter o bioma do cerrado em estrume econômico. Em contrapartida ao aumento da produção de alimentos, propiciou o surgimento de desertos, o descontrole do clima, o aparecimento de pragas resistentes cujo controle requer cada vez mais venenos de efeitos paralelos potencialmente letais. E pode-se observar que a estupidez segue firme no controle da situação. Pois não há nenhum pesquisador que se saiba, procurando soluções para recompor o bioma do cerrado. Mas há vários grupos buscando encontrar cultivares que possam resistir e continuar produzindo num ambiente alterado e hostil.

Esquecendo-se de que nós, filhos da Natureza, não podemos prescindir de um ambiente salubre e ameno e que de nada valerão as cultivares resistentes, se o próprio homem será deletado pelo perrengue ambiental que ele mesmo provocou... 


Fonte: Revista Bula